
O erro silencioso que enfraquece laudos odontológicos
E quase ninguém percebe
Igor Cunha
5/19/20262 min read

Existe uma crença meio automática na odontologia: quanto mais técnico o laudo, melhor ele é.
Na prática, não é assim.
Um laudo pode estar tecnicamente correto, bem fundamentado, até elegante do ponto de vista científico, e ainda assim ser fraco dentro do processo. E isso ocorre com mais frequência do que deveria.
O ponto não é falta de conhecimento. Raramente é.
O ponto é estrutura.
O Código de Processo Civil brasileiro não exige um laudo “elegante”, mas exige um que seja compreensível, verificável e logicamente sustentado. Parece básico, mas é justamente aí que muitos escorregam.
Às vezes o problema começa já no início: não fica claro o que, exatamente, está sendo analisado. O texto avança, traz informação, discute aspectos técnicos… mas o objeto da perícia fica difuso. E, se isso não está claro, o restante perde força.
Em outros casos, a conclusão aparece pronta, quase como um veredito. Só que o caminho até ela não está bem construído. E, sem caminho, o que existe é impressão — não convencimento. Conclusão sem método se assemelha a opinião.
Também é comum ver análise técnica sem a menor preocupação em explicitar o método utilizado. Como se isso fosse óbvio. Não é. Se não há método claramente apresentado, não há perícia no sentido pleno, mas uma narrativa.
E há ainda o clássico: respostas vagas a quesitos objetivos. O famoso “depende”, desacompanhado de delimitação. Isso não esclarece. Isso escapa.
Entretanto, talvez o ponto mais negligenciado seja outro: o laudo que não conversa com quem vai julgá-lo. O juiz não é dentista. E não deveria precisar ser. Se ele não entende o que você escreveu, ele não tem por que confiar no que você concluiu.
No fim, o problema não está na técnica, e sim na tradução da técnica.
Um bom laudo não precisa impressionar. Seu objetivo é informar, traduzir o mundo técnico para o entendimento do juízo e advogados.
Um bom laudo se sustenta quando é lido com atenção, questionado, e quando tentam desmontá-lo.
E isso não vem de complexidade. Vem de clareza, de conexão lógica e de coerência interna.
É exatamente nesse ponto que muitos profissionais travam: não por falta de capacidade, mas por nunca terem sido orientados a pensar o laudo como ele realmente funciona dentro de um processo.
Talvez valha a pena mudar a lente: parar de enxergar o laudo como um documento técnico e começar a enxergá-lo como uma peça de raciocínio que precisa se sustentar por conta própria.
É essa mudança de mentalidade que estrutura a mentoria que venho desenvolvendo para peritos: sair da lógica acadêmica e entrar na lógica pericial real. Onde cada afirmação tem peso, cada escolha tem consequência e cada conclusão precisa ser defendida.
Um bom laudo é entalhado em pedra. Um laudo fraco é escrito na areia ao vento.