
Paciente não gostou. E agora?
Nem toda insatisfação gera processo
Igor Cunha
1/26/20262 min read

Essa é uma situação mais comum do que muitos dentistas admitem:
o tratamento foi tecnicamente correto, os exames estão bons, o planejamento foi seguido… mas o paciente sai insatisfeito.
E aí vem a pergunta que tira o sono de qualquer profissional:
o que fazer quando o paciente simplesmente não gostou do resultado?
Vamos usar um exemplo clássico: uma prótese sobre implantes.
A osseointegração ocorreu normalmente, a prótese está estável, funcional, dentro dos padrões técnicos. Ainda assim, o paciente diz: “Não era isso que eu esperava".
Primeira coisa: insatisfação não é, por si só, erro
O CDC deixa claro que o consumidor tem direito à informação adequada, clara e prévia sobre o serviço prestado.
Ele não garante automaticamente que toda frustração subjetiva se transforme em falha do profissional.
Em outras palavras:
nem toda insatisfação é erro odontológico.
Mas atenção: isso não encerra o problema.
O ponto central não é apenas o resultado técnico — é a expectativa criada ao longo do tratamento.
Expectativa mal alinhada é o maior risco jurídico
Em tratamentos complexos, como próteses sobre implantes, o paciente geralmente não tem parâmetros técnicos para avaliar o resultado. Ele avalia com base em três coisas:
estética
conforto
expectativa emocional (“vou voltar a sorrir como antes”)
Se essas expectativas não foram claramente discutidas, registradas e delimitadas, o profissional fica vulnerável — mesmo tendo feito tudo certo.
O Código de Ética Odontológica é claro ao exigir que o cirurgião-dentista:
informe corretamente riscos, limites e possibilidades do tratamento;
não prometa resultados que não possa garantir;
atue com honestidade e boa-fé na relação com o paciente.
Prometer “resultado perfeito”, “igual ao natural” ou “como novo” é abrir uma porta enorme para conflito.
O que fazer, na prática, quando o paciente não gostou?
Escute antes de se defender
Muitos conflitos escalam porque o paciente sente que sua queixa foi desqualificada.
Ouvir não significa concordar — significa entender.Diferencie o que é técnico do que é subjetivo
Perguntas simples ajudam:
O problema é dor?
É função?
É estética?
Ou é frustração com a expectativa criada?
Revise o que foi informado antes do tratamento
Consentimento informado, anotações em prontuário, conversas registradas.
Isso é proteção para o profissional e clareza para o paciente.Avalie possibilidades razoáveis de ajuste
O CDC incentiva a solução do conflito antes de qualquer judicialização.
Se houver ajuste possível, tecnicamente seguro e proporcional, muitas vezes vale a pena discutir.Evite respostas impulsivas
Frases como “está perfeito” ou “isso é psicológico” costumam piorar a situação.
Mesmo que o trabalho esteja correto, a forma de comunicação importa — e muito.
Quando a insatisfação vira risco jurídico?
Quando há:
falha de informação;
promessa de resultado;
ausência de registro adequado;
ou postura defensiva e pouco colaborativa.
Nesses casos, o problema raramente é só a prótese — é a relação profissional-paciente.
Em suma:
Um resultado tecnicamente bom não garante satisfação automática.
Mas uma relação ética, bem documentada e comunicada reduz drasticamente o risco de conflitos.
A pergunta não é apenas “o tratamento ficou bom?”
É também “o paciente sabia exatamente o que esperar?”
Na odontologia contemporânea, técnica protege dentes.
Comunicação protege o profissional.